quinta-feira, 1 de maio de 2014

Os discípulos de Emaús - 3º Domingo da Páscoa - Ano A


Um comentário à luz da mistagogia do texto do Evangelho do 3º Domingo da Páscoa – Ano A
(a partir do exercício da Lectio Divina na Encontro Nacional da Rede Celebra de animação litúrgica, em 2011, Luziânia – GO)

Eurivaldo Silva Ferreira

Texto de Lucas 24,13-35. Lucas apresenta o relato das aparições em três cenas: a revelação pelos anjos às mulheres (24,1-12); a revelação pessoal a duas testemunhas a caminho de Emaús (24,13-35); a revelação aos onze e na ascensão (36-49.50-53). Este relato dos discípulos de Emaús é próprio de Lucas. (ler ou contar o texto). Distingue-se de outros relatos que contam  as aparições do Ressuscitado e assemelha-se à história de Filipe e do eunuco em Atos 8,26-40. Nos dois casos, a perplexidade inicial é resolvida pela instrução, e cada relato termina com a ação sacramental (contexto litúrgico).[1] O texto de Emaús é uma homilia pascal, no primeiro dia da semana, cujo desfecho é o encontro com Cristo na Ceia (tomou o pão, deu graças, partiu e repartiu) e a volta a Jerusalém (missão). Certamente era um casal, Cléofas e Maria de Cléofas. Em que consiste o discipulado de Jesus nesse contexto?

13Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, (Domingo) dois dos discípulos iam para um povoado, chamado Emaús, a uns dez quilômetros de Jerusalém.
Caminho é o catecumenato da primeira comunidade. É o caminho de Jesus. A missa é um momento da caminhada. É um elemento inscrito no próprio caminho. Pode-se perceber que as comunidades estavam desanimando, o fogo do Espírito estava se apagando. Era por volta do ano 80 que esse texto foi escrito. Jesus é o elemento sempre presente do caminho. O fogo interior tem que ser vencido no caminho, deixar a luz iluminar as trevas. O texto começa relatando a atitude de voltar pra casa depois da decepção, esperando talvez a gozação dos conhecidos, amigos e vizinhos.

14Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido (Recordação da vida). O anúncio é um diálogo entre a Palavra da Escritura e os fatos da vida. Jesus interpreta essa palavra. A Bíblia como tal não é palavra de Deus. É preciso ser interpretada. Jesus faz a interpretação dos textos. Ele faz a hermenêutica.

15Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles
(A Palavra se faz presente, ou seja, aquele do qual estavam falando se faz no meio deles; Jesus respeita a caminhada de cada um, acompanhado seus passos, mas conhecendo seus limites. Eles são alcançados pelo Cristo. Ora, os fatos da vida, mesmo que sejam negativos, são alcançados pelo Cristo, têm a possibilidade de se deixar ser alcançados pelo Cristo, pois não há nada que lhe escape aos seus olhos; a própria situação predispõe à audição. A angústia deles era a angústia da saudade e não do vazio).

16Os seus olhos, porém, estavam como vedados, incapazes de reconhecê-lo.
(Impotentes, é a possibilidade daquele que está cru, do não iniciado. Como pensar que dessa situação pode brotar missionariedade, fidelidade, processo de conversão?).

17Então, Jesus perguntou: “O que andais conversando pelo caminho?”
(Jesus queria sentir o que os discípulos vinham falando pelo caminho. Ora, começou pelo conceito de que aquilo que vinham vivendo. Aí uma dica para os catequistas, animadores, agentes de pastoral etc. para que não assumam uma posição para que o povo não tenha o direito de permanecer no seu estado de ignorância. Jesus não impõe, mas acompanha, entrando na conversa, escutando suas ansiedades, e depois interferindo tudo isso à luz da Palavra, buscando nas Sagradas Escrituras os acontecimentos que definem e iluminam aquela realidade, mostrando como é que Deus agiu naquela situação).

Eles pararam com o rosto triste, 18e um deles, chamado Cléofas, lhe disse: “És tu o único peregrino em Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nestes dias?” 19Ele perguntou: “Que foi?”
(o peregrino no caminho sofre com quem caminha, se aproxima, sente pena deles e se interessa por seus problemas e suas angústias, é alguém que sabe se aproximar, que provoca a contar a história deles, a frustração profunda deles).

Eles responderam: “O que aconteceu com Jesus, o Nazareno, que foi um profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e diante de todo o povo.
(reconhecem a profecia de Jesus, que é um profeta poderoso diante do povo e de Deus. Não é ser profeta por ser profeta, simplesmente, mas anunciar e interpretar os fatos da vida a partir da vida. A interpretação de um messias triunfalista reinava naquela época, mas Jesus interpreta esse fato de outra forma, como um messias que serve o sofredor, e não o poderoso, o guerreiro).

20Os sumos sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. 21Nós esperávamos que fosse ele quem libertaria Israel; mas, com tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram! 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos assustaram. Elas foram de madrugada ao túmulo 23e não encontraram o corpo dele. Então voltaram, dizendo que tinham visto anjos e que estes afirmaram que ele está vivo. 24Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres tinham dito. A ele porém, ninguém viu”. (Relato do acontecimento histórico-bíblico. Os iniciados já conheciam o fato através do elemento narrativo, conforme Cirilo de Jerusalém, portanto, sabiam contar direitinho a história. Jesus faz uma relação dialógica).

25Então ele lhes disse: “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! 26Não era necessário que o Cristo sofresse tudo isso para entrar na sua glória?” 27E começando por Moisés e passando por todos os profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, as passagens que se referiam a ele.
(os fatos da vida são iluminados pela Palavra de Deus. Uma coisa não é só lembrar Moisés, mas a vida passa pelos fatos das Sagradas Escrituras. Acontece aqui uma instrução da parte de Jesus. Jesus é nesta hora o próprio mistagogo, ou seja, aquele que introduz no mistério. Neste caso, a mistagogia se dá através do próprio mistério, quer dizer, o próprio mistério fazendo-se conduzir para dentro de si próprio. Jesus indaga sobe a visão e o entendimento da Sagrada Escritura através de uma inteligência e através de uma rapidez. Jesus estava na dinâmica do tudo rápido, portanto o entendimento tinha que ser imediato por parte dos discípulos. Jesus lembra aos discípulos que eles não eram os únicos que tinham sofrido uma frustração tão grande, lembrando de outros personagens que também se frustraram, mas Deus não os deixou nas mãos da angústia e da frustração. Jesus não se promove, ele busca na história das Sagradas Escrituras não para se autopromover, mas para indicar na SE essa análise em respeito à sua messianidade. Na pessoa que está sendo iniciada está acontecendo o bem, ela contribui e colabora para o processo de salvação, na medida que ela for compreendendo o mistério).

28Quando chegaram perto do povoado para onde iam, ele fez de conta que ia adiante.
(o mistagogo, que é o próprio Jesus, faz de conta que vai avançar, mas não avança, ele usa de um recurso pedagógico para que os iniciados percebam que ele quer ficar, e aceita esse convite de ficar ali).

29Eles, porém, insistiam: “Fica conosco, pois é tarde e a noite vem chegando!”
(anoitece. A noite colabora para a frustração, para a angústia. A natureza colabora, o cronos colabora para isso, o cronos se vincula à realidade social daqueles discípulos; o momento da graça se dá através de uma forma cultural, convidar o outro para ficar).

Ele entrou para ficar com eles. 30Depois que se sentou à mesa com eles, tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu a eles (Partilha, mesa). Precisou novamente fazer o rito, pois é o rito que condensa a teologia, para se reconhecer mais ainda quem é Jesus, quem é a eucaristia. O que será que Jesus tinha dito na bênção desta mesa?

31Neste momento, seus olhos se abriram, e eles o reconheceram.
(quando os olhos se abrem se dá o cume do processo mistagógico).

Ele, porém, desapareceu da vista deles.
(O verbo desaparecer indica que Jesus pode ter ido pra dentro dos discípulos, pois antes disso o coração deles ardia, desejando a presença do Senhor. O desaparecimento é assumido pelos dois discípulos e por nós também, assumindo em nosso próprio corpo o corpo de Cristo. Cristo passou por isso, nós somos ele agora. O importante não é tê-lo agora, mas pensar que somos cristianizados).

32Então um disse ao outro: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”
(nossas angústias eclesiais é que nos incomodam hoje. Não encontramos cidadania, pois não temos lugar nessa estrutura eclesial e clerical).
33Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém, onde encontraram reunidos os Onze e os outros discípulos.
(o ápice e o foco do catecumenato é a missão, que se dá ad-intra e ad-extra; para Lucas, os discípulos entenderam esse processo missionário; os catecúmenos se tornaram mistagogos. Dentro do processo de revelação eles mudam de rota, eles querem de novo fazer comunidade).

34E estes confirmaram: “Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!” 35 Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como o tinham reconhecido ao partir o pão.
(de fato, não era uma novidade o aparecimento de Jesus. O caminho não é ilusório, mas é real. Eles reconhecem Jesus, pois já tinham vivido um pré-catecumenato. A descoberta da ressurreição é a minha vida. Muitas vezes colocamos a tarefa da fé como compromisso, mas essa é muito mais uma atitude. O que devemos viver é a ressurreição, sermos seres ressuscitados, isso é o que importa).



[1] Nas aparições narradas por João e Lucas, os discípulos não reconhecem o Senhor no primeiro instante, mas somente após uma palavra ou um sinal, a razão disso é que permanecendo inteiramente idêntico a si mesmo, o corpo do Ressuscitado encontra-se num estado novo, que modifica sua forma exterior e o liberta das condições sensíveis (cf. Jo 20,19) . Sobre o corpo glorioso, leia 1Cor 15,44 .
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