sexta-feira, 20 de agosto de 2010

César versus Deus

Prezados/as amigos/as leitores/as, teólogos, teólogas e todo povo de Deus.


Está circulando por e-mails ou já se tem publicado em jornais um texto do bispo da Diocese de Guarulhos, D. Luiz Gonzaga, "recomendando a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a não votar na candidada Dilma". Sua 'tênue' recomendação refere-se ao fato de que há alguns candidatos que andam apoiando alguns princípios morais e éticos segundo os quais contrariam as orientações da Igreja.

Recebi este texto (publicado logo abaixo) e respondi ao remetente, à qual repasso a todos/as, a fim de que surta uma reflexão nesse tempo de eleições.

Fiquem à vontade para fazer seus comentários e suas considerações, se assim o desejar, pois o que expresso abaixo é apenas uma opinião pessoal, tendo em vista meu ínfimo nível de consciência político-cristã.
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Prezado amigo,

Agradeço o e-mail enviado, mas quero ressaltar algumas posições que abrangem o aspecto civil e religioso, às quais sustento e afirmo, e nem por isso deixo de declarar publicamente minha expressão de fé.

Penso que a posição de D. Luiz Gonzaga, bispo de Guarulhos, contraria ao que ele mesmo disse: "Por isto a Igreja não se posiciona nem faz campanha a favor de nenhum partido ou candidato". Quando ele diz: "recomendamos a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a que não dêem seu voto à Senhora Dilma Rousseff e demais candidatos que aprovam tais “liberações”, independentemente do partido a que pertençam", ele, enquanto Igreja, está tendo um posicionamento político, inclusive indicando em quem não votar. Quando se indica em quem não votar, é tomar partido, é também e fazer campanha, é escolher alguém.

Talvez, por falta de conhecimento próprio, também por falta de uma assessoria eficaz por parte de sua equipe, o sr. Bispo D. Luiz Gonzaga nunca deveria ter essa posição: a de indicar em quem não votar. Ora, se a Igreja se abstém de indicar em quem votar, então porque é que um bispo tem a autoridade de indicar em quem não votar? Penso que o princípio do posicionamento vale para ambas as afirmações. Quando se diz que não se deve votar em fulano ou em cicrano, afirma-se que se deve direcionar o seu voto a beltrano. Isso não seria indicação de candidato ou pertença partidária? Ora, quais os candidatos à presidência mais falados de que ouvimos? São três. Se eu sigo a orientação de um bispo, de não votar em um, tenho que direcionar o meu voto a outro.

Também por uma questão de direito civil, não se deve recomendar a anulação do voto, que não é o caso do texto de D. Luiz Gonzaga. O voto direto é um direito conquistado em muitos países, principalmente os de regime democrático.

Que tal uma reflexão no âmbito da influência do poder? Palavras de um bispo ressoam bem entre os chamados de "verdadeiros cristãos" e "verdadeiros católicos". O que é, portanto, ser "verdadeiro cristão" e "verdadeiro católico"? Parafraseando Pilatos, como a verdade se relaciona com o ser cristão e o ser católico?

A questão da identidade ou pertença a uma religião não passa pelas categorias da verdade pessoal ou individual, mas pela categoria da ética e da moral. A verdade é adquirida pelos conceitos que tal religião apresenta a quem nela se insere. O individuo então passa a absorver esses ensinamentos e sua doutrina, mas não se anula, enquanto ser, ao contrário, ele cresce, positivando-se. O poder do do sagrado não anula o poder da identidade pessoal, pelo contrário, o primeiro fortalece o segundo. Sinto em afirmar que o poder do sagrado é o poder mais destruidor que tem. O poder político pode me exilar, mas não me destrói. O poder econômico pode tirar minhas condições financeiras, mas não me destrói, mas o poder do sagrado pode “matar” uma comunidade inteira. E é o que constato.

Talvez seria interessante nós darmos uma olhada interna em nossa Igreja, para sabermos que em determinados setores há uma verdadeira busca de anulação da identidade pessoal, prevalecendo a identidade coletiva. Tudo isso é fruto da má interpretação da salvação, o que sugere outra reflexão no âmbito da Escatologia e da Eclesiologia. Então, quando o sr. bispo diz que a Igreja não intervem no Estado, talvez ele devesse se informar melhor, olhando para o interior da própria instituição ao qual pertece para poder afirmar essa minha constatação.

Só para citar um exemplo, tem-se conhecimento de que seminaristas, estudantes e candidatos a padres, espalhados por esse Brasil, sequer têm vínculo à Previdência Social (INSS), pois o instituto ou a congregação ao qual pertence não lhes recolhe os valores devidos ao INSS, a fim de que esse rapaz tenha uma chamada asseguridade social ao chegar o tempo de sua aposentadoria. Sabe-se que apenas o Estado tem o dever de assegurar a qualquer cidadão de incluir-se na Previdência Social, garantindo-lhe acesso à aposentadoria e a recursos de saúde, quando necessitado em ocasião de doença ou invalidez. No Brasil, tanto o trabalhador empregado quanto o autônomo, assim como quem não trabalha mas recolhe os valores devidos ao INSS dispõem desse direito. Entretanto, tal situação não é se contrapor ao Estado? Porque a Igreja tem o direito de anular o indivíduo, inclusive, negando-lhe direitos civis, assegurados pelo mesmo Estado, os quais estão previstos na Constituição Federal? Será se o Reino de Deus anula o indivíduo? Será se dentre as categorias do Reino está a de negar os direitos civis a todos quantos nele quer servir? Penso que não. O Reino de Deus é muito maior que a Igreja. O Reino positiva o indivíduo e não o anula. Esse é apenas um dos diversos problemas de ordem jurídica encontrados no interior de nossa Igreja.

Talvez devamos examinar a questão pela ótica da moral e da ética. É bom que se lembre que nem uma nem outra são conceitos terminados no âmbito eclesial. A Igreja ainda não tem um tratado de moral e de ética, mas a questão está no âmbito das orientações.

Quando se fala em moral e ética, ao separarmos uma da outra, temos um problema que pode tornar-se perigoso. O mesmo seria se separássemos razão e fé. Ou ainda como se separássemos normas e princípios. Se ficarmos no princípio somente, teorizamos. Se ficarmos na norma somente, escravizamos. A experiência religiosa vista pela amplitude da norma é massacrante. Por isso penso que é bom que orientações no sentido de não votar em tal candidato não seja norma, apenas porque um bispo diz ou recomenda.

Numa sociedade pluralista é inerente mostrar a racionalidade de toda postura ética. Não se trata de impor, muito menos de pronunciar frases que nem todos entendam. O cristão não constitui elemento discriminatório entre ética e moral, mas a partir do discurso sentido começa a elaborar em si mesmo o sentido ético. As categorias de consciência crítica ajudam nesse processo. Penso que as orientações na escolha dos candidatos devem ser feitas pela via do despertar da consciência e não pela via da norma pela norma.

Meu pensamento é o de que, antes de sairmos por aí dizendo em quem devemos ou não votar, invistam-se em celebrações bem feitas, em liturgias mais claras e evidentes do Mistério Pascal que se celebra em seu centro e o tem como fonte e cume. Pergunto também: porque nossas liturgias não são conscientizadoras? Se tivéssemos celebrando bem o Mistério Pascal não preciaríamos de orientações normativas. A própria celebração do Mistério Pascal, que contém a Lei, nos diria e nos abriria a consciência para o intervir no mundo, em todas as realidades, mudando o curso e o estado delas. O Mistério Pascal é universal e atinge a todos e a todas. Ele é a segurança de que temos para mudar o que deve ser mudado.

Agora, porque é que apesar de celebrarmos nossas liturgias, elas não conseguem mudar a realidade? O que nos falta ainda? A reflexão a seguir pode nos ajudar. Baseado em escritos antigos judaicos, há um autor que diz que o mundo repousa sobre três colunas: a Lei, a liturgia e as obras de caridade. Não se pode passar da Lei para as obras de caridade sem antes vivenciar a oração, na liturgia. Assim, as obras de misericórdia devem ser conduzidas à luz da oração, se não pode-se cair no legalismo, pelo simples fato de se estar exercendo o direito legal (a Torah, no judaísmo e o Magistério da Igreja, para os católicos, por exemplo). Em resumo, significa que não se pode passar da compreensão para a ação sem antes ter vivido a liturgia, exercida num tempo intermediário de oração e contemplação. A liturgia é a chave para a consciência, rumo à mudança real.

Evidentemente o assunto sugere mais reflexão e tomada de atitude. Não seguirei as orientações de D. Luiz Gonzaga, apesar de me considerar cristão. Ainda prefiro pensar que minha consciência é a casa do meu direito.

Grande abraço.

Euri.
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Abaixo o texto com a recomendação de D. Luiz Gonzaga:

Com esta frase Jesus definiu bem a autonomia e o respeito, que deve haver entre a política (César) e a religião (Deus). Por isto a Igreja não se posiciona nem faz campanha a favor de nenhum partido ou candidato, mas faz parte da sua missão zelar para que o que é de “Deus” não seja manipulado ou usurpado por “César” e vice-versa.

Quando acontece essa usurpação ou manipulação é dever da Igreja intervir convidando a não votar em partido ou candidato que torne perigosa a liberdade religiosa e de consciência ou desrespeito à vida humana e aos valores da família, pois tudo isso é de Deus e não de César. Vice-versa extrapola da missão da Igreja querer dominar ou substituir-se ao estado, pois neste caso ela estaria usurpando o que é de César e não de Deus.

Já na campanha eleitoral de 1996, denunciei um candidato que ofendeu pública e comprovadamente a Igreja, pois esta atitude foi uma usurpação por parte de César daquilo que é de Deus, ou seja o respeito à liberdade religiosa.

Na atual conjuntura política o Partido dos Trabalhadores (PT) através de seu IIIº e IVº Congressos Nacionais (2007 e 2010 respectivamente), ratificando o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3) através da punição dos deputados Luiz Bassuma e Henrique Afonso, por serem defensores da vida, se posicionou pública e abertamente a favor da legalização do aborto, contra os valores da família e contra a liberdade de consciência.

Na condição de Bispo Diocesano, como r e s p o n s á v e l pela defesa da fé, da moral e dos princípios fundamentais da lei natural que - por serem naturais procedem do próprio Deus e por isso atingem a todos os homens -, denunciamos e condenamos como contrárias às leis de Deus todas as formas de atentado contra a vida, dom de Deus,como o suicídio, o homicídio assim como o aborto pelo qual, criminosa e covardemente, tira-se a vida de um ser humano, completamente incapaz de se defender. A liberação do aborto que vem sendo discutida e aprovada por alguns políticos não pode ser aceita por quem se diz cristão ou católico. Já afirmamos muitas vezes e agora repetimos: não temos partido político, mas não podemos deixar de condenar a legalização do aborto. (confira-se Ex. 20,13; MT 5,21).

Isto posto, recomendamos a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a que não dêem seu voto à Senhora Dilma Rousseff e demais candidatos que aprovam tais “liberações”, independentemente do partido a que pertençam.

Evangelizar é nossa responsabilidade, o que implica anunciar a verdade e denunciar o erro, procurando, dentro desses princípios, o melhor para o Brasil e nossos irmãos brasileiros e não é contrariando o Evangelho que podemos contar com as bênçãos de Deus e proteção de nossa Mãe e Padroeira, a Imaculada Conceição.

D. Luiz Gonzaga Bergonzini

Bispo de Guarulhos - SP
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