domingo, 19 de setembro de 2010

Porque a Igreja não diz em quem não votar

Irmão e Irmã na Fé que nos Une:

É longo, mas peço que, se vai responder, leia até o fim, OK? É minha posição como cristão e como cidadão brasileiro! Leia assim, e não como A PALAVRA DA IGREJA, mesmo porque, graças a Deus, não sou TODA A IGREJA:

Tenho sido importunado por correntes católicas que parecem querer me obrigar a NÃO votar neste ou naquele candidato político por causa das questões morais católicas.

Sei que ao me pronunciar sobre isto serei vítima de ataques, mas tudo bem, não tenho medo… Tenho medo sim de posições perigosas para a Igreja.

Perigosas porque, se dizemos em quem NÃO votar, acabamos dizendo em QUEM votar. E se fazemos isto estamos afirmando que este em quem votamos está plenamente de acordo com a doutrina da Igreja, está de acordo com a proposta de Jesus Cristo.

Qual é a proposta de Jesus Cristo? O REINO DE DEUS. E o Reino acontece quando Deus reina no coração das pessoas e sua vontade, que é um mundo marcado pelo AMOR, acontece em todas as dimensões da vida humana e para todas as pessoas que o desejam sinceramente. O REINO é o AMOR inflamando a vida pessoal, familiar, fraterna, comunitária, profissional, social e política.

O REINO já aconteceu para nós, em plenitude, na pessoa e na obra de Jesus Cristo. Porém, no mundo ainda não está plenamente presente. E é obrigação DOS CRISTÃOS fazer com que este REINO aconteça o mais possível na terra. O REINO é “já”, na pessoa e na obra de Jesus, mas “ainda não” em toda nossa realidade. É pra ELE que apontamos e ao mostrá-lo, mostramos o modelo de mundo que queremos e sonhamos.

Como cristãos precisamos sim defender a vida. Toda a vida, em todas as suas dimensões, em todas as suas fases. Por isso, precisamos sim lutar sempre. Precisamos formar bem nossos cristãos e ajudá-los a viver a moral que acreditamos. Essa é NOSSA OBRIGAÇÃO. Não podemos nem devemos exigir de mais ninguém além de nós mesmos que ensinemos esta moral, que a ajudemos a ser cumprida por todos os cristãos em primeiro lugar.

Pergunto: se o aborto for aprovado por este ou aquele partido, mas nossas mulheres deste país de maioria cristã se recusarem a abortar, a descriminalização do aborto vai surtir efeito? Digo gritando: NÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOO!

Se todos os jovens cristãos forem ajudados a viver a sexualidade de acordo com o ensinamento evangélico, e o governo continuar a distribuir camisinhas o que vai acontecer? Elas VÃO VIRAR BEXIGA PRA CRIANÇADA BRINCAR (foi o que um grupo de adolescentes católicos fez estes dias em um colégio estadual, hehehe)…

Se as famílias cristãs forem ajudadas a viver a fidelidade, por mais que se incentive o divórcio, ele vai acontecer? NÃÃÃÃOOOOOOO!!!

Porque temos a mania de jogar para o governo a obrigação que é nossa? Parece ser essa a mania de nosso povo brasileiro… Deixar para o governante fazer sozinho aquilo que TODA A POPULAÇÃO DEVERIA FAZER JUNTO.

Mas parece ser a tendência da moda dos cristãos… Não conseguimos mais ajudar todo nosso povo a viver a nossa moral. DAÍ QUEREMOS QUE O GOVERNO FAÇA AQUILO QUE É OBRIGAÇÃO PRIMEIRO DA HIERARQUIA, MAS DEPOIS DE TODO O POVO CATÓLICO. Sabe… Isso me lembra uma frase de Jesus: “Amarram pesados fardos, colocam no ombro dos outros e não o carregam nem sequer com um dedo” (Mt 23,4).

Mas essa tendência é bem antiguinha… Sabe quando começou? No século IV, com Constantino. Foi com ele que o Estado começou a se unir à Igreja. Até Concílios o Imperador convocou. E ali começou o problema das investiduras, que só foi resolvido na Idade Média com o Concílio de Latrão… Os governantes, católicos é claro, assumiram o papel dos pastores do povo e, com seus interesses políticos, escolhiam bispos, padres e até papas (graças a Deus o Espírito guia a Igreja… e juntou os caquinhos…). Quanto mal isso fez à Igreja… E no Brasil, pasmem, parte deste mal continuou até a Proclamação da República, com o fim do Regime de Padroado. Documentos papais eram filtrados pela censura Imperial. Nosso Catolicismo praticamente não conheceu as importantes reformas do Concílio de Trento por causa do maldito padroado, herança do Império português. A inquisição, tão aludida pelos que atacam a Igreja, já tinha sido condenada pela Santa Sé, mas no Brasil, Portugal e Espanha imperaram até o Século XIX – apoiado pelos Impérios… A Escravatura, condenada por todos os papas da modernidade (depois do concílio de Tento) não pode ser condenada pela hierarquia brasileira porque o IMPERADOR proibia… E sofremos, nós Igreja (não os estados), até hoje, atacados por causa da Inquisição, da escravidão e de outros males do dito ESTADO CRISTÃO. A Igreja foi usada pelos poderosos para garantir seus poderes e sua influência no meio do nosso povo.

Por isso proclamo: como foi bom pra Igreja libertar-se disso… A Igreja no Brasil, após o fim do padroado, pode crescer! Inúmeras diocese foram criadas (eram apenas de 12 até 1888…). A pastoral pode se desenvolver independente dos partidos, das ditaduras ou de quem quer que estivesse no poder. Trento pode ser aplicado e a Igreja se viu livre inclusive para ser voz profética…

Mas parece que tem gente que tem saudades de Constantino… Tem saudades do Padroado. Quando a Igreja diz em quem votar e em quem não votar, pode estar caindo no mesmo erro de dizer que este ou aquele candidato representa Deus ou o diabo… Ou pior… Pode estar sendo usada por quem, para agradar os católicos, disfarça-se de bom moço e depois não vai estar de acordo com o Reino proposto pelo Cristo.

Aliás… Não haverá candidato, partido, tendência que sejam de acordo com o Cristo… Mesmo que o nosso melhor santo seja presidente da república… Nenhum deles poderá estar à altura daquilo que Nosso Senhor quer de nós.

Não nos iludamos, irmãos. A CNBB – órgão oficial da Igreja – não disse em quem votar, nem muito menos em quem não votar. Mas tem gente querendo ser mais que os bispos e que o papa no Brasil… Tem televisões “católicas” que se acham no direito de obrigar as consciências a votar neste ou naquele. ISSO É ABUSO ESPIRITUAL… Essa gente deveria receber repreensões severas… Há inclusive bispos apoiando essa postura… Mas não a CNBB como um todo (nem o Papa).

E afirmo mais: aqui em Curitiba NOSSO BISPO É CONTRA ESSA POSTURA DE DIZER EM QUEM VOTAR OU NÃO… Portanto, quem faz o contrário não está em comunhão com ele…

Às vezes podemos votar em algum candidato que, estando de acordo com alguns pontos – importantes é claro – da moral sexual católica, esteja em TOTAL DESACORDO COM A DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. Tenho medo dos católicos ingênuos, que se deixam inflamar pelos discursos eleitoreiros de alguns candidatos (todos eles tem discurso eleitoreiro, hehehe) e votarão em partidos ou tendências pensando que são católicas, MAS ESTAVAM SÓ DISFARÇADOS. E daí, como ficaremos? Seremos de novo julgados pelas iniquidades deste partido como somos julgados pela Inquisição até hoje? Se apoiarmos cegamente apenas um partido digo que SIM. Se rejeitarmos em bloco algum partido, digo que SIM. E como as iniquidades de QUALQUER UM DESTES CANDIDATOS vai aparecer, o nome da Igreja vai pro lixo com eles. Seremos condenados pelos nossos futuros cristãos que dirão: porque a Igreja daquele tempo apoiou este candidato? (Vejam a Igreja da Argentina, como sofre, por ter apoiado a ditadura, que considerava ser o melhor modelo para o país na época…). Nenhum destes candidatos fará o Reino acontecer no Brasil, pois esta é tarefa primeira da Igreja. Não se iludam, irmãozinhos, não se iludam com nenhum deles… Nenhum deles é o Messias. Só Jesus é nosso Senhor.

Aliás… Não tenho medo de dizer: NENHUM DESTES CANDIDATOS À PRESIDÊNCIA ESTÁ DE ACORDO PLENO COM A MORAL E COM A FÉ CATÓLICAS. Se fosse pra votar em algum deles por causa da regularidade com nossa moral, não votaria em nenhum.

Já dissemos, no passado, que a Esquerda era mais cristã… Já dissemos, no passado, que a Direita era mais cristã… E no fundo, NEM LÁ NEM CÁ foram cristãos de verdade…

Digo mais: e se o presidente eleito for ateu? Vamos mudar de país por causa disso? NÃO… Caso isso acontecesse, teríamos que fazer o NOSSO trabalho para que o Cristo seja conhecido e seu Reino aconteça até mesmo no Palácio do Planalto. A Igreja não tem partidos: ELA PRECISA INFLAMAR TODOS OS PARTIDOS. Precisa estar dentro do PT, dento do PSDB, dentro do PV e do PSOL para desde dentro MUDÁ-LOS para melhor. Essa deve ser a postura dos cristãos. E não podemos esperar que eles mudem pra daí a gente participar deles. Precisamos estar dentro deles para mudá-los – essa é nossa tarefa e se não o fazemos SEREMOS OMISSOS.

Lembro aqui, irmãos, uma frase do meu querido e amado Bem Aventurado João XXIII, o papa do Concílio Vaticano II. Em determinado dia, ele acolheu a filha do presidente da União Soviética. Parte da Cúria Romana de então considerava a URSS como uma grande inimiga… Alguns cardeais não queriam que o papa a acolhesse, afirmando que eram inimigos da Igreja. O papa, santo em sua sabedoria, afirmou: A Igreja de Cristo NÃO TEM INIMIGOS, porque o CRISTO NÃO TEM INIMIGOS. Eles podem se fazer nossos inimigos pela vontade deles… Nós, porém, vamos amá-los até o fim, como o fez o Cristo, para que se tornem melhores.

Como provocação final: porque não divulgamos a cartilha da CNBB? Porque não a lemos? Ela é que tem validade pra Igreja. Ao invés de partilharmos esse monte de e-mail’s apocalípticos desta ou daquela TV, deste ou daquele pastor… Porque não lemos o que a IGREJA DO BRASIL nos dá como magistério oficial?

Não tenho medo mesmo de dizer: irmão na fé! Vc é livre pra votar em quem a sua consciência mandar. Mas escolha bem! Seu voto terá consequências. Seja na esquerda, seja na direita, seja em cima, seja em baixo ou o escambal a quatro… Todos eles terão consequências positivas ou negativas para o Brasil (e não apenas para os católicos…). Pese os prós e os contras de todo projeto de país que seu candidato apresenta e só então decida em quem votar, OK?

Em Cristo e na paz com todos

“Naquilo que é essencial, unidade; naquilo que é duvidoso, a liberdade; e em tudo, caridade” (Santo Agostinho)

PE. ALEXSANDER CORDEIRO LOPES
Vice-Reitor do Seminário São João Maria Vianney
Assessor do Setor Juventude Curitiba - Fone: 2105-6364

“Agradeço pelo empenho de tantas vozes dispersas até agora! Vamos juntos(as) gritar, girar o mundo. Chega de violência e extermínio de Jovens.” Pe. Gisley, um dia antes de seu assassinato
Postar um comentário