segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Em que ocasião cantar o Hino do Ano Santo da Misericórdia?


O Hino composto para o Ano Santo da Misericórdia, de autoria de Eugenio Costa e Paul Inwood, tem caráter litânico, isto é, pertence à família das ladainhas.

É composto de um refrão: Misericordiosos como o Pai! [cf. Lc,6], e as estrofes ou invocações são uma espécie de invocação e exortação ao povo que, por sua vez, responde: Pois eterna é a sua misericórdia!. Esta resposta é baseada no Salmo 136: Eterna é a sua misericórdia!, conforme cita o documento Misericordiae vultus [O rosto da misericórdia, papa Francisco], nº 7, em que proclama o Ano Santo da Misericórdia, no qual diz:

A misericórdia torna a história de Deus com Israel uma história da salvação. O fato de repetir, continuamente ‘pois eterno é o seu amor’, como faz o Salmo, parece querer romper o círculo do espaço e do tempo para inserir tudo no mistério eterno do amor. É como se se quisesse dizer que o homem, não só na história, mas também pela eternidade, estará sempre sob o olhar misericordioso do Pai. (…) O fato de saber que o próprio Jesus rezou este Salmo, torna-o, para nós cristãos, ainda mais importante e compromete-nos a assumir o refrão na nossa oração de louvor diária: ‘eterna é a sua misericórdia’“.

Também no Salmo 118(117), a resposta O seu amor é para sempre! traduz o mesmo sentimento descrito acima. Trata-se de um salmo pascal que recorda as maravilhas que o Senhor fez para com o povo de Israel. Este salmo era cantado pelo povo ao adentrar no templo reconstruído.

Tendo esse pano de fundo com esses motivos: a ladainha na qual invoca-se a misericórdia de Deus, o Salmo 136 e o Salmo 118(117), podemos então situar o Hino para o Ano Santo da Misericórdia e pensar como ele pode ajudar a assembleia a recordar-se da misericórdia de Deus na celebração da Eucaristia e em outras celebrações litúrgicas.

Mas antes é preciso informar que aqui não formulamos nenhuma orientação com relação ao Hino, o que caberá a cada grupo de cantores e instrumentistas, equipes de liturgia e comunidades a bem situá-lo, dependendo do contexto da celebração, dos motivos da comunidade, sobretudo do tempo litúrgico, e das necessidades da comunidade em celebrar bem, em momentos oportunos, o Ano Santo da Misericórdia, principalmente debruçando-se sobre o documento Misericordiae vultus [O rosto da misericórdia] que proclama este ano.

Sempre é bom lembrar que não vale “enfiar” o Hino em qualquer lugar da celebração ou em qualquer dia. É preciso critério e clareza para se pensar numa boa e qualificada oportunidade de se cantá-lo, a fim de que a comunidade celebrante possa cantar com inteireza, se apropriando de seu conteúdo, de suas belas palavras e sua melodia possa tocar profundamente cada um/a. O canto litúrgico ajuda a comunidade a rezar e a se apropriar do conteúdo de fé nele presente. Cantar com conhecimento de causa, eis a questão!

Já disse aqui neste blog em outro artigo que “a música litúrgica, revestida de seu texto poético e melodia, tem força de realizar aquilo que significa quando se coloca a serviço mesmo da liturgia, solenizando-a, e santificando a assembleia celebrante, por isso ela é o sinal sensível mais eloquente da assembleia celebrante (SC, 7, 112, 113). O canto, com uma melodia eficaz e uma poesia consistente e qualitativa, é capaz de exprimir a alegria do coração que vibra, ao ressaltar a importância da celebração, solenizando-a (Dies Domini, João Paulo II)”.

Assim, sugerimos as possibilidades abaixo, que pensamos sejam significativas para as comunidades:

– Baseado no nº 9 do referido documento, há vários textos bíblicos que podem ser usados nas celebrações da misericórdia. Havendo na comunidade essas celebrações, é oportuno cantar o Hino, na abertura, num momento próprio para algum gesto de reconciliação mútua dos presentes, ou outro momento que a comunidade julgue necessário.

– No tempo da Quaresma, sobretudo no 3º Domingo (A figueira que não dá frutos), no 4º Domingo (O filho que retorna à casa do Pai) e no 5º Domingo (A mulher a quem Jesus perdoou), são oportunidades bem significativas para se cantar o Hino, seja na Abertura da celebração ou como canto da Comunhão. Particularmente, o canto da Comunhão deve estar ligado ao conteúdo do Evangelho, o que o faz elemento de ligação das duas mesas: a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia. Neste sentido, a letra do Hino se torna oportuna a este momento. Porém, não se esqueçam do bom repertório quaresmal que temos no Hinário Litúrgico da CNBB, Vol. II para esses dois momentos.

– Os nºs 17 e 18 do documento Misericordiae vultus [O rosto da misericórdia] também sugere que a Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus. E descreve vários textos bíblicos que podem ser refletidos neste período. Como por exemplo, encontrar espaços e ocasiões que a comunidade deve bem celebrar os motivos que ela mesma presenciou a misericórdia de Deus em sua caminhada. As festas dos padroeiros, com os tríduos, são ótimas ocasiões para isso, principalmente se as comunidades reservarem a celebração da Eucaristia para o último dia da festa, deixando que os outros dias sejam verdadeiros encontros celebrativos (Ofício Divino, Celebração da Palavra ou Novenas) em que a comunidade visualize em seu padroeiro aquele que acolheu em vida e foi merecedor da misericórdia de Deus.

– Também o nº 17 do mesmo documento indica uma iniciativa para as comunidades e dioceses: “24 horas para o Senhor”, celebrada na sexta-feira e no sábado anteriores ao 4º Domingo da Quaresma, ocasião em que muitos “estão se aproximando do sacramento da Reconciliação e que frequentemente, nesta experiência, reencontram o caminho para voltar ao Senhor, viver um momento de intensa oração e redescobrir o sentido da sua vida”.

– Se a comunidade tem o hábito de rezar e celebrar o Ofício Divino com o povo, pela manhã ou à tarde, eis aí um momento oportuno para se cantar o Hino, até mesmo uma ou duas estrofes, como sugere o nº 7 do documento, “tornar o ‘eterna é a sua misericórdia’ como nossa oração diária”.

Enfim, são várias possibilidades que pensei e que agora dependem da criatividade, do zelo pastoral das equipes e dos ministros em cantar bem o Hino do Ano Santo da Misericórdia.

Esperamos e confiamos que as comunidades paroquiais saibam aproveitá-lo bem e pelo dom da voz e da música, entoar as misericórdias de Deus, que são para sempre!

Com carinho, desejamos aos leitores boa caminhada quaresmal e ótimas celebrações do Ano Santo da Misericórdia!

Obs.: Aos que desejarem, tenho em partitura uma versão em português brasileiro, inclusive traduzindo as partes em latim para nossa língua, adaptada por Márcio Antônio de Almeida, a pedido do compositor britânico Paul Inwood, com o qual estivemos em Traunstein, Alemanha, em agosto de 2015, no Universa Laus, ocasião em que nos apresentou o Hino e nos contou uma pequena história a respeito do concurso e da escolha do Hino. 
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