segunda-feira, 11 de junho de 2012

Santo Antônio, o bem-aventurado que promoveu a fé, fortificando o serviço pela causa do Reino


  Eurivaldo Silva Ferreira      


No segundo dia do tríduo preparatório para a festa do padroeiro de minha comunidade paroquial, preparei a reflexão abaixo.
       
        Bento XVI começa o nº 7 de sua Carta Apostólica, A Porta da Fé, com a citação de Paulo aos Coríntios, em que afirma que quem nos impulsiona a evangelizar é o amor de Cristo. De fato, vemos em Paulo um ardoroso comunicador e evangelizador. Pelas várias comunidades que passou, ele mesmo vive experiências difíceis em seu itinerário de anunciador da fé em Jesus Cristo. A razão em que Paulo se fundamenta para afirmar que é urgente o serviço da evangelização seria porque na comunidade de Corinto havia se espalhado rumores de que Paulo não pertencia a Jesus só pelo fato de Paulo não ter conhecido Jesus pessoalmente. Por isso é que Paulo começa o trecho dizendo que a força do testemunho não é o conhecimento, mas a fé na morte e ressurreição de Jesus. Em Jesus, aquilo que era antigo passou-se, e se fizeram novas todas as coisas.
Para a comunidade de Corinto, Paulo era como um estranho anunciando Jesus, só pelo fato de não ter convivido com o próprio Jesus. O importante desta carta enviada é que Paulo atesta que aqueles que estão em Cristo são, portanto, criaturas novas. Estar em Cristo, não é nada mais que superar as divisões que podem existir na comunidade, fazendo com que o amor seja a fonte da pacífica convivência, o que resulta na experiência da graça e da alegria.
O evangelho que hoje ouviremos se encaixa nesta perspectiva, isto é, por causa do anúncio do Reino as contrariedades vão existindo e tomando forma. É por causa dos desprovidos de todas as possibilidades, consolação, herança da terra, saciedade, misericórdia, presença de Deus, ser chamados de filhos de Deus e posse do Reino que esses serão chamados de bem-aventurados por Jesus.
No domingo que passou, o Evangelho nos trouxe a mensagem de que o mal sempre existirá, e que nossa luta em vencer o mal deve se transformar num desejo constante de não permitir que ele ganhe proporções maiores que o amor, que é a própria força motriz do anúncio do Reino. Quem se dedica a esse fim se torna realmente integrante do parentesco de Jesus, impulsionado pelo mesmo Espírito que o impulsionou a agir contra as forças do mal. É nesse contexto de uma luta dramática entre o bem e o mal que está a nossa fé. Aonde buscamos forças para acreditar que uma realidade melhor é possível? Afinal, com tantas forças contrárias no mundo, será se ainda podemos resistir? Como firmar a nossa fé nesse contexto?
Bento XVI, em sua carta, diz que é necessário “descobrir novamente os conteúdos da fé professada, celebrada, vivida e rezada, e refletir sobre o próprio ato com que se crê; isso é um compromisso que cada pessoa que crê deve assumir” (Porta Fidei, nº 9, p. 12). Pois bem, aqui estão os marcos importantes para o bom itinerário da fé, cujas qualidades Bento XVI as resume em cinco: a fé professada, celebrada, vivida, rezada e refletida. Essas cinco qualidades podemos vivenciar nas nossas ações litúrgicas. Os conteúdos oferecidos pelos ritos são verdadeiras portas para a nossa adesão de fé. Um exemplo bastante interessante são as orações de exorcismo propostas pelo Ritual de Iniciação à Vida Cristã, cujo conteúdo sugere que uma vida cristã se inicia com a vitória radical sobre o mal e sobre as propostas de seu autor: satanás. Acreditar nisso, rezando e ritualizando, é nos colocarmos num “conhecimento da fé que nos introduz na totalidade do mistério de salvação revelado por Deus” (Porta Fidei, nº 10, p. 15). Este mistério vai aos poucos revelando-se a nós, e atualiza-se continuamente à medida que nós vamos participando dos outros “sinais da vitória de Cristo”, que são os sacramentos. Portanto, nas celebrações e na participação dos sacramentos, está o modo com que também podemos assentir, isto é, aceitar uma vida de fé, tendo em vista aquilo que o próprio mistério propõe, ao mesmo tempo nos permitindo conhecer, paulatinamente, o mistério do amor de Deus que permeia nossa existência (Porta Fidei, nº 10, p. 15). Sem a liturgia e os sacramentos, a profissão de fé não seria eficaz, porque faltaria a graça que sustenta o testemunho dos cristãos (Porta Fidei, nº 11, p. 17).
Participar do mistério do amor de Deus em nossa realidade é tomar como ponto de partida o Evangelho de hoje. As bem-aventuranças são um convite de alegria àqueles que se engajam no serviço do Reino, sobretudo os pobres, os possuidores do Reino. É a eles que está preparada a recompensa no céu, não porque vivem nessas condições, mas porque a misericórdia e a consolação de Deus se manifestam na sua justiça, que é traduzida como salvação de toda opressão.
O mistério do amor de Deus também passa pelas situações em que os discípulos de Jesus se veem obrigados a enfrentar: a pobreza, a opressão, o sofrimento e a injustiça. Compreendemos também que as forças do mal agem no coração dessas situações. Acreditar nas bem-aventuranças é acreditar na própria força de Deus que conduz a história. Os discípulos e missionários devem tomar consciência dessa força, na luta contra as situações de contraposição às realidades de vida. A proposta das bem-aventuranças é uma em que permeia o mundo da novidade de Deus.
Portanto, viver a fé na realização daquilo que Jesus propõe no conteúdo das bem-aventuranças é permitir-nos que esta mesma fé “nos torne fecundos, porque alarga o coração com a esperança e permite oferecer um testemunho que é capaz de gerar: de fato, abre o coração e a mente dos ouvintes para acolherem o convite do Senhor e aderir à sua Palavra, a fim de se tornarem seus discípulos. Os que creem ‘fortificam-se acreditando’, diz Santo Agostinho”. (Porta Fidei, nº 7, pp.10-11).
Santo Antônio, o discípulo de Jesus, certamente viveu as bem-aventuranças em sua existência, não sem antes conhecer a realidade que o cercava. Aceitando ser missionário, abriu-se à realidade daqueles que ainda não tinham a possibilidade de crer. Bem-aventurado porque acreditou na causa do Reino, fortificou a fé daqueles e daquelas que viviam uma busca sincera do sentido último e da verdade definitiva da sua existência e do mundo. Que Santo Antônio seja para nós um exemplo de pessoa de fé, cujas virtudes o fizeram estar no rol daqueles e daquelas que receberam a coroa da glória.

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